Blog da Bolha

Arquivo Dezembro, 2008

Capítulo 5 | Pedaladas: uma década de fuga ao ajuste no ciclo

Reprodução do capítulo 5 do livro “A Grande Bolha de Wall St. - Como ela pegou o mundo, como ela pode afetar você” de Paulo Rabello de Castro & colaboradores.

Em 1998, a revista TIME deu capa e destaque comparável ao de astronautas a Greenspan, Rubin e Summers por haverem engendrado um forma de pedalar o mercado financeiro para fora de zona de risco de ajustamento. Roberto Rubin, eficiente secretário do Tesouro de Bill Clinton, como homem de mercado e ex-patrão da poderosa corretora Goldman Sachs, sabia exatamente o que poderia significar um ajuste macroeconômico a meio caminho do segundo mandato do presidente democrata. Correu para apoiar a manobra do FED de Nova York, então comandado por William McDonough. Um pacote de emergência de $3,5 bilhões foi então montado pelos próprios bancos envolvidos no imbróglio por exigência do sub-comandante do Federal Reserve Board e responsável pelas instituições bancárias na área de Nova York. McDonough ganhou a parada ao fazer os grandes bancos refinanciar o prejuízo do LTCM - Long Term Capital Management.

Como todos eram aplicadores no fundo do LTCM, o que McDonough fez foi organizar o auto-interesse dos próprios banqueiros. Por sorte, o nível de contaminação de compromissos cruzados em derivativos não era, nem por uma fração mínima, parecida com o tamanho da bola de neve formada na crise atual de 2008. E, assim, naquela ocasião, o mercado financeiro foi saindo de fininho e se livrando dos passivos gerados pela situação criada pelas perdas geradas pelo default da Rússia.

Em seguida veio a crise do Brasil, demonstrado pelo ataque especulativo contra a política insustentável do plano Real, baseada numa âncora de câmbio fixo. Todos lembramos ainda do pecado mortal de se pretender manter o preço do frango à custa da manipulação de um câmbio artificialmente contido, enquanto as despesas de governo explodiam em todos os níveis. O resultado foi ajustamento e sofrimento, é claro. Uma operação de resgate dos títulos brasileiros foi montada de modo a propiciar liquidez ao endividado país, enquanto entrava em cena o FMI para impor a necessária disciplina fiscal. Com a liberação do câmbio pela adoção, inédita no Brasil, de um regime de taxas flutuantes, para não dizer livres, as forças de mercado puderam agir na direção certa, empurrando as exportações para frente ainda em 1999.

Ao final de setembro daquele ano, véspera da virada do milênio, O Wall Street Journal organizou um grande seminário tentando avaliar o “estrago” nas economias emergentes da América do Sul, especialmente Brasil e Argentina. Enquanto o Brasil tentava a sorte com o novo regime de real flutuante, a Argentina era saudada ainda como o regime mais estável do momento, com seu câmbio rigidamente atrelado ao dólar através da regra de conversibilidade paritária, de um peso para um dólar. Naquele seminário, a que compareceriam, em painéis subseqüentes, o chefe do FED de Nova York, William McDonough, e também Carlos Menem e Armínio Fraga, estes falando na mesa de almoço, apresentamo-nos com Ricardo Lopez Murphy, pelo Brasil e Argentina, respectivamente, no primeiro painel da manhã do evento.

A situação merece lembrança para mostrar como o que vai aparentemente mal - como parecia ser o caso do Brasil naquela quadra especialmente difícil - nem sempre tem reservado um final trágico, ao passo que a vizinha Argentina, apesar de tão bem representada pelo liberal Lopez Murphy, tinha um calote bilionário a ela reservado no futuro nada distante. Murphy foi extremamente honesto; para um orgulhoso argentino, quase foi humilde. Ao destacar a fragilidade do momento argentino, quando ainda não se percebia bem a estupidez do congelamento da moeda local na paridade um para um, Murphy foi capaz de dizer, sem afirmar claramente, que sua economia ia, de fato, de mal a pior.

Enquanto isso, no Brasil, recém-egresso de um pacote internacional de salvamento, o estado sofrível da sua economia era apenas o início de uma real possibilidade de recuperação. Sobre isso expusemos nossas idéias, apesar da visível perplexidade da platéia sobra os rumos do país.

Pouco importava, porém, a falta de méritos de um Brasil cansado de errar em políticas macroeconômicas. A realidade passara a ser diferente a partir da flexibilização do câmbio empreendida corajosamente por… ninguém! Quer dizer, a mudança foi realizada naturalmente por todos, pela sociedade, quando atropelara o carcomido sistema de intervenção oficial para decretar, por si mesma, a liberdade cambial.

Como confiava nessa revolução silenciosa do setor produtivo, eu nela apostara minhas fichas há duas décadas, numa insistência solitária nas virtudes superiores do câmbio livre para o Brasil. Confiava na saída pelas exportações, fórmula vitoriosa dos anos setenta. O Brasil daria a volta por cima sem colapso. Problemática era a economia da nação vizinha. A Argentina vivia um falso progresso e comemorava o final de uma era de endividamento explosivo. O resto, todos sabemos como aconteceu.

Naquele dia, McDonough também falou com propriedade sobre os riscos da economia americana, ressaltando a necessidade de manter os olhos no equilíbrio fiscal alcançado pela gestão Clinton, como única fiança do regime monetário frouxo da década de alta liquidez. Parecia falar como um sucessor de Greenspan. Talvez fosse sério demais ou talvez tivesse idéias próprias demais, ou talvez tivesse enfrentado demais o “establishment” financeiro, obrigando os credores do LTCM a limpar a sujeira da festa dos admiráveis anos noventa, que enriquecera tantos artistas do meio financeiro em tão pouco tempo.

À altura da soleira do novo Milênio, não sabíamos nada do que ainda estaria por vir com as inovações financeiras que se começavam a experimentar. Mal iniciávamos a subida a ladeira da acumulação em operações de derivativos de crédito naquele ano de 1999. Pouco conhecíamos dos erros novos, inéditos, que ainda seriam cometidos em nome do lucro fácil, em nome da vontade de competir e vencer a qualquer preço, e da possibilidade de corromper ou ser corrompido pelos modos mais sutis e poderosos, afastados de qualquer monitoramento da qualidade verdadeira dos créditos negociados, mas aperfeiçoados no método e na eficácia dos processos de dissimulação de riscos.

Na sessão do almoço do Seminário, um grande salão do tradicional Hotel Roosevelt abrigava a elite de Wall Street para ouvir dois convidados de Bill Rhodes, o anfitrião da comida e indefectível administrador das crises sul-americanas pelo Citicorp, banqueiro do maior prestígio por suas façanhas de contornar calotes considerados monumentais. Bill Rhodes convidara para falar no almoço uma dupla de água e azeite, impossíveis de se misturar ou confundir: de um lado, o polêmico Carlos Saúl Menem, recém egresso de dois longos mandatos na Casa Rosada, e responsável pelo resgate da Argentina de sua pior crise secular, a de 1989, que, de tão virulenta, obrigara seu predecessor, Raúl Alfonsin, a deixar o governo vária semanas antes do prazo constitucional, tamanho era o grau de destruição moral e financeira a que chegara o país, curvado pela hiperinflação e um mega-endividamento. De outro, Armínio Fraga, o jovem e arguto presidente do Banco Central do Brasil, bem articulado e convicto de que, finalmente, tinha nas mãos as rédeas da economia mais errática do continente. Com o câmbio flutuante já começando a apresentar seus primeiros resultados positivos, foi possível a Armínio apontar com razoável segurança. um ano de 2000 de retomada do crescimento, confirmando a minha intervenção na parte da manhã ao mostrar a repercussão da balança comercial brasileira através da reação inicial do agronegócio, o sempre esquecido segmento salvador da pátria nos seus piores momentos.

Menem, ao contrário, estava irreconhecível, em sua falta de persuasão nos argumentos ressentidos de quem estava fora do poder há pouco tempo. Não era o mesmo Menem que eu vira entrar, meio patético, mas certamente garboso, acenando para uma platéia vibrante no centro do picadeiro do Parque Agropecuáro de Palermo, ao final daquele ano terrível de 1989, na Argentina, após a saída apressada do presidente Raúl Alfonsin, um democrata que fizera uma enorme inflação. Menem propusera ao povo argentino “La revolución productiva”, no seu discurso de inauguração, tudo o que a elite argentina queria e precisava ouvir naquela fria manhã, em que o valor do patrimônio portenho havia sido corroído a quase zero. Dez anos depois, o avanço argentino deixava dúvidas de novo, e gerava apreensões financeiras pela bolha de consumo e de endividamento em que se metera o país uma vez mais. Menem não foi convincente como em Palermo, apesar do seu aparato midiático de segurança na entrada e na saída do espaço do salão de almoço, com sua trupe de guarda-costas que fazia lembrar uma mafioso nova-iorquino, contrastando com a simplicidade de Armínio e sua mochila a tiracolo.

É que Menem não estava à vontade, e nisso foi tão convincente quanto o fora o intelectual Lopez-Murphy, na parte da manhã. Menem demonstrou que algo de desastroso se armava no cenário argentino, um pouco do “après moi, le déluge”…

A rememoração do calote argentino, que finalmente ocorreu 24 meses depois desse evento em Nova York, é fundamental na compreensão dos fenômenos de auto-engano que o mercado pratica vez por outra. À volta de 1999, a grade preocupação dos credores não era com a Argentina, considerada alinhada com o dólar pela rigidez da conversibilidade, e sim o possível calote do Brasil, caso fracassasse o sistema das metas de inflação e os controles fiscais em fase de implantação no segundo mandato de FHC. Por isso, Bill Rhodes se mostrara tão solícito com Fraga, ao apresentá-lo como “my good friend Armínio”. No entanto, numa curta distância à frente, de apenas dois anos, ficaria demonstrado que os banqueiros tinham o foco errado em suas preocupações, porque concentradas no risco menos grave.

Aliás, as agências de risco internacionais também compartilhavam o erro e o fomentavam involuntariamente, ao avaliar os papéis do governo argentino como menos arriscados que os do Brasil. E assim permaneceram, com a visão de risco turvada pelo conceito da “blindagem” da conversibilidade até praticamente a véspera da catástrofe financeira dos papéis argentinos em dezembro de 2001.

Enquanto isso, vagarosamente o Brasil emergia da sua crise financeira, à custas de trabalho e sacrifício de consumo. Os credores bancos e suas agências de risco, mais uma vez, julgaram mal os verdadeiros perigos por que passavam seus créditos.

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